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A entrevista a seguir, com o ator José de Abreu, foi concedida ao site teatral Interpalco, realizada pelos atores Fabiano Martins e Ivan Pinho, no início do ano 2000. Atualmente, José de Abreu divide seu tempo entre a televisão, o teatro e o cinema. O ator interpreta Pandit, na novela das 8, Caminho das Índias, da Rede Globo e está lançando dois longas-metragens: Bela noite para Voar, de Zelito Viana, no qual interpreta o presidente Juscelino Kubitschek e O Menino da Porteira, de Jeremias Moreira. Além de tudo isso, ele ainda tem fôlego para ensaiar e produzir a peça Vão Paraíso, de Walter Daguerre.
Interpalco - O espetáculo “Baal”, de Brecht, foi um dos seus primeiros espetáculos?
José de Abreu - Não, na verdade não. Eu vou fazer uma retrospectiva da minha carreira pra vocês. Eu comecei minha carreira em 1966, quando entrei na Faculdade Católica de Direito em São Paulo. Um grupo de teatro importante, chamado Grupo de Teatro da Universidade Católica, TUCA, que em 65 havia ganho um prêmio, o maior prêmio de teatro de Nancinabô, com uma peça chamada "Morte Vida Severina", que é um poema, um auto de Natal do João Cabral de Melo Neto, musicada por um garoto novo que estava começando a carreira, chamado Francisco Buarque de Holanda. Logo depois que o Chico fez essa coisa, estoura "A Banda", a primeira música dele que fez sucesso e tal. E esse grupo voltou da França, continuou na faculdade e no primeiro dia de aula um colega do centro acadêmico me chamou, perguntou se eu não queria assistir o ensaio da peça, eu fui e comecei a trabalhar como produtor do grupo, estudante mesmo. Só que a peça tinha um sucesso estrondoso, porque tinha ganho o Festival de Nancy (na França) e aqui no Brasil começaram a viajar. Aqui no Rio de Janeiro foi um sucesso maluco, teve uma enchente em 67 que a cidade estava de baixo d’água e a peça lotando, mesmo assim as pessoas saiam para ver. Quer ver uma loucura? Tinha uma coisa também de política da época, a peça era muito libertária e a gente estava vivendo uma ditadura, e ela não pode proibir a peça porque tinha sido premiada no exterior. O João Cabral de Melo Neto era embaixador do Brasil em Portugal, servindo o governo. Como é que vai proibir a peça do cara que é nosso embaixador? Eles foram obrigados a engolir. Depois fiz uma peça chamada “O & A” do Roberto Freire, com música do Chico Buarque e também do TUCA. Depois fiz a minha estréia profissional, foi com uma peça... Uma tragédia grega, “Electra” de Sófocles, fazia o principal papel masculino, o Orestes. Mas na época o movimento estudantil era muito forte, eu fazia movimento estudantil também. O TUCA era um grupo de teatro estudantil que ativava uma política consistente. Teve um congresso da UNE em 1968 que fui preso com uma peça em cartaz. A peça era quarta, quinta, sexta, sábado e domingo e eu ia passar a segunda e terça no congresso e acabamos caindo. Eu saí da cadeia na véspera do AI-5 no dia 13 de dezembro de 1968. O governo federal passou o Ato Institucional número 5, que acabou com as garantias individuais, aí a polícia bateu na minha casa de novo, eu fugi, fui pra Bahia.
Aí já caí na clandestinidade, fiquei um tempo aqui no Rio trabalhando em uma organização guerrilheira, fazendo apoio logístico, nunca pequei em arma não, não estava muito afim. Cheguei a levar do Rio para São Paulo uma mala de dólares roubadas da namorada do político paulista Ademar de Barros, que é mostrado no filme "O que é isso, companheiro?", fiz umas atividades na época consideradas subversivas e tal, e já tinha esse processo lá em São Paulo do congresso da UNE. Acabei indo para Recife, Salvador, meio clandestino. Deixei o cabelo crescer, barba crescer, virei um hippie meio filosófico. Aí fui morar no Rio Grande do Sul, de lá resolvi sair do país, estava muito barra pesada, não conseguia fazer teatro, eu não sabia até que ponto eu era conhecido e fui embora para o exterior. Fiquei em Londres, em Amsterdã. Morando em Londres, lavando pratos, dei umas aulas de teatro e expressão corporal como voluntário, em 72, se não me engano, no finalzinho de 72. Depois morei em Amsterdã um tempo também, depois fui pra Grécia ser pedreiro numa ilha grega. Aí a saudade bateu, bateu, bateu, bateu, voltei e fui embora pro Rio Grande do Sul, ainda tinha ditadura no Brasil, voltei em 74 e fui morar em Pelotas. Lá voltei a fazer teatro, viajava, dava uma volta ali pelo interior do Rio Grande do Sul, até que com uma peça que teve sucesso fui para Porto Alegre, fiz a peça lá, a polícia não me incomodou e fiquei um tempo em Porto Alegre. Até que em 79 fui convidado para fazer um filme, uma produtora aqui do Rio, um filme chamado “A intrusa” que fiz como protagonista, eu e Maria Zilda, o filme ganhou vários prêmios no Festival de Gramado e eu ganhei o prêmio de melhor ator. A Maria Zilda namorava um diretor da Globo, o Roberto Talma, que me viu, me achou um bom ator e me convidou para vir para Globo. Final de oitenta eu vim pro Rio e estou aqui desde 80. Bom, aqui no Rio eu fiz um monte de novelas, uns 20 filmes, 22 longas metragens, fiz muito cinema. Cheguei aqui como ator de cinema, mas logo em seguida eu estreei uma peça em 81. Tive muita sorte de ter sido convidado pra fazer “O beijo da mulher aranha” com Rubens Correia no Teatro Ipanema, que foi o maior sucesso do ano. A gente ficou um ano aqui no Rio, fui pra São Paulo, fiquei 1 ano, viajei o Brasil inteiro e aí deslanchou. Teatro, cinema e televisão, fazendo muita coisa junta. E aí eu estou há 20 anos aqui no Rio jogando nas 3 posições: bato córner, cabeceio e defendo.
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