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Interpalco - Ao longo da sua carreira, você interpretou diferentes personagens cômicos e trágicos. Para o ator isso pode significar um exercício contínuo da psicologia, influenciando na sua vida pessoal?
José de Abreu - Eu acho que sim, eu estudei numa época psicologia infantil. Teve uma época que eu fui professor de crianças e formava professores para dar aula de educação dramática. Eu costumo dizer que criança não deve fazer teatro e sim educação dramática, que não tem essa coisa de construção do personagem. É mais usar o teatro como crescimento humano, não para apresentar uma peça. A criança quando brinca "eu sou mãe", ela acredita que ela é mãe mesmo. Tanto que Stanislavisky baseou-se nessa crença. Quando um garoto pega uma caixa de fósforo faz "brum, brum", ele pensa que aquilo é um caminhãozinho. E o ator tem que ter o discernimento para saber o que é o personagem e o que é ele próprio. É óbvio que sempre mistura, momentos assim de teatro é uma coisa que te envolve muito. Momentos de criação no cinema, quando você está muito envolvido no personagem, você adquire algumas características dele, mas depois que acaba você perde. Eu faço muito papel em cinema de cara bravo, machão, que fala meio grosso. As pessoas que estão à minha volta acham que eu fico mais grosso e tal, e quando eu faço comédia é ao contrário, eu fico mais bem humorado, mais simpático.
Interpalco - Continuando neste tema, sobre o envolvimento ou distanciamento do personagem com ator, podemos dizer que existem duas teorias de se representar, uma que tem a identificação do ator com o personagem, Stanislavisky, e ao contrário, que é o ator distanciado, Brecht, utilizando mais a técnica. Qual teoria que você mais se adapta?
José de Abreu - Primeiro eu acho que a teoria do Brecht, a única pessoa que conseguiu fazer foi ele, foi o grupo dele, que conseguiu fazer uma técnica de distanciamento. Isso não sou eu quem estou dizendo, vários críticos de teatro disseram isso. O que se fez muito aqui no Brasil, no Teatro Oficina de São Paulo, foi usar o recurso do coringa, que quer dizer que a cada cena o personagem era representado por um ator, então evitava que o público se identifica-se com o personagem e trocava. O coringa não vale nada. Vale qualquer carta... Então aquele ator coringava. Uma hora eu entrava como Olegário, outra como Joel, então isso cria um distanciamento. Como Brecht usava cartazes, tudo para você não esquecer que está no teatro, você não perde a consciência crítica. Isso passou, isso foi uma época quando o teatro era usado como veículo de conscientização política, agora o Brecht, mesmo ele, quebrava a cara. “A Mãe Coragem” na estréia em Paris as pessoas choravam de derramar lágrimas, se emocionaram pra cacete. Ninguém teve senso crítico nenhum, ele ficou puto em Paris porque as pessoas choravam emocionadíssimas e nem hoje se sabe muito bem se o Brecht fazia isso para ganhar dinheiro, para ser subvencionado pela cultura comunista, pela Alemanha Oriental. Tem crítico que acha que você montar a peça dele sem dar bola para teoria é muito melhor. Agora, eu sou stanislaviskiano na boa. Eu fiz Brecht, mas eu construo meus personagens à moda de Stanislavisky, com memória da emoção, vida anterior, vida posterior, vida interior. Tem um métodozinho Stanislavisky que eu bolei ao longo da minha vida, criando todas aquelas imagens. Por exemplo, um negócio que é do caralho. Não está no método de Stanislavisky, mas que os estudiosos chegaram... Exemplo, quando você vai representar um personagem, você vai criar a história dele, as circunstâncias propostas que tem no texto, o que aconteceu antes até chegar aqui e tal, e uma das coisas, muito interessante, é você fazer um álbum de família. Você pega um monte de revista velha e imagina como era a mãe, que cara tinha a mãe deste personagem. Você arruma uma cara de alguma pessoa e quando você fala na minha mãe, não me vem a palavra mãe na cabeça, vem aquela cara que você escolheu, a imagem, a casa onde ele nasceu, o vizinho, o cachorro que ele tinha... Aí você vai escrevendo a história dele e vai fazendo um álbum de família, você cria uma vida a partir do que o autor te deu, para você rechear a tua cabeça, pensar como o personagem pensaria.
Interpalco - Você destacaria alguns atores que trabalharam contigo?
José de Abreu - Sem dúvida, tem pessoas importantíssimas. O Luís Artur Nunes, que vai me dirigir novamente, o Rubens Correa, o Ivan de Albuquerque... A minha carreira é antes e depois do Rubens Correa, eu aprendi a representar, a saber a profundeza, o mistério, a dor e a delícia de representar. Eu aprendi com Rubens Correa, a gente fez a peça 730 vezes, uma peça de dois atores com duas horas, só os dois ali em cima o tempo inteiro, é uma coisa! E o Rubens Correa era um dos maiores atores que o Brasil já teve em todas as épocas, um gênio da interpretação.
Interpalco - Você indicou o nosso site para a revista Veja. Que comentário você faria da Interpalco para os nossos leitores?
José de Abreu - Eu achei uma mistura do caralho de Internet com teatro, Interpalco. Depois que vocês bolaram, me parece uma palavra óbvia. Mas dizem que a boa marca é aquela que quando você vê depois de feita você fala: "só podia ser isso". Eu sou interneteiro velho, desde 95.
Valeu Zé, muito obrigado pela entrevista! Lhe desejamos mais sucesso (se isso for possível)!
Fonte: Interpalco
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